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Promovendo a Saúde

RELIGIOSIDADE E SAÚDE

INTRODUÇÃO

Durante o século XX, cientistas e intelectuais de grande influência no meio acadêmico, principalmente na área de saúde mental, atribuíram à religiosidade um efeito negativo para o funcionamento psicológico.

Partindo basicamente de teorias e opiniões pessoais, sem base em investigações epidemiológicas sistematizadas, contribuíram para a disseminação da idéia de que a religiosidade teria um impacto negativo sobre a saúde mental1,2.

Atualmente as investigações sobre a relação entre religiosidade e saúde buscam testar e avaliar como crenças e comportamentos religiosos se relacionam ou interferem na saúde, assim como em outros aspectos da vida do indivíduo. Do ponto de vista clínico e epidemiológico, importa avaliar o impacto que religião, religiosidade e espiritualidade possam ter sobre a saúde física e mental de uma pessoa ou uma comunidade1,2,3.

A influência da religião e religiosidade sobre a saúde e, em especial, a saúde mental, é um fenômeno resultante de vários fatores. Entre os possíveis modos pelos quais o envolvimento religioso poderia influenciar a saúde, estão fatores como estilo de vida, suporte social, um sistema de crenças, práticasreligiosas, formas de expressar estresse, direção e orientação espiritual2.

A ampla maioria dos estudos de boa qualidade realizados até o momento, aponta que maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico, como satisfação com a vida, felicidade, afeto positivo e moral elevado, melhor saúde física e mental. O nível de envolvimento religioso tende a estar inversamente relacionado à depressão, pensamentos e comportamentos suicidas, uso e abuso de álcool e outras drogas. Habitualmente, o impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental é mais intenso entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, como idosos, pessoas com deficiências e doenças clínicas. Os mecanismos teóricos da conexão entre religiosidade e saúde e as implicações clínicas desses achados serão discutidos a frente. Atualmente, duas áreas desta conexão necessitam de maiores investigações: a compreensão dos fatores mediadores dessa associação e a aplicação desse conhecimento na prática clínica1,2.

Apesar da importância da religião e da espiritualidade para a população, até recentemente esses temas não eram incluídos no currículo de profissionais de saúde e nem tinham lugar na prática clínica. Nos últimos vinte anos, várias centenas de artigos têm sido publicados na literatura acadêmica médica e psicológica sobre a relação entre religião e saúde. Recentemente, foi publicado um suplemento especial de uma revista psiquiátrica brasileira inteiramente dedicado à “Espiritualidade e Saúde”1. Muitas escolas médicas já começam a integrar espiritualidade ao currículo. Nos Estados Unidos, 84 entre as 126 escolas médicas oferecem cursos sobre espiritualidade e medicina2. No Brasil, iniciativas pioneiras de oferecimento de disciplinas sobre medicina e espiritualidade partiram das Faculdades de Medicina da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Federal de Minas Gerais2.

HISTÓRICO

Intelectuais e cientistas importantes do século passado previram que a religiosidade desapareceria ou decresceria ao longo do século XX, resultando em completo laicismo da sociedade. Porém, o que ocorreu nas últimas décadas foi um aumento do interesse dos cientistas pela religiosidade e a manutenção de altos percentuais de pessoas que se consideram religiosas ou espiritualizadas em suas várias formas em todo o mundo, especialmente no continente Americano. No Brasil, o censo de 2000 apontou que apenas 7% dos recenseados se declararam sem religião. Mesmo entre esses 7%, provavelmente se incluíram pessoas com alguma expressão de espiritualidade, porém não ligada a uma religião organizada2.

A Ideia de que religião e psiquiatria sempre estiveram em conflito é senso comum. Ainda hoje, por exemplo, muitas pessoas pensam que, na Idade Média, as doenças mentais eram habitualmente consideradas feitiçaria ou possessão demoníaca. Esse ponto de vista sofre sérias limitações e carece de adequado embasamento histórico. Na “longa noite medieval”, causas naturais para transtornos mentais eram amplamente aceitas.

Vários outros mitos são tidos como verdade até hoje: a de que a idade média foi a “idade das trevas”, quando se acreditava que a terra era plana, que os transtornos mentais tinham apenas causas demoníacas e que o surgimento da ciência moderna se deu a partir da negação da religiosidade/espiritualidade1,2,4.

A alegada oposição entre a iluminada medicina e a teologia obscurantista, assim como entre o médico humanista e o religioso cruel, são mitos. Na realidade, a história da religião e a atenção a pessoas sofrendo de doenças físicas ou mentais têm muitos pontos em comum. Na civilização ocidental, cuidados a pessoas enfermas surgiram dentro dos mosteiros medievais e organizações religiosas proveram alguns dos primeiros e melhores cuidados aos portadores de sofrimento mental1,2.

Da Idade Média ao século passado, ordens religiosas criaram e mantiveram a uma parcela dos hospitais da Europa e América. O primeiro hospital destinado aos cuidados de enfermos mentais foi construído em Valência, na Espanha em 1409, dirigido por religiosos. No Brasil, a grande maioria dos primeiros hospitais foi construída e mantida por grupos religiosos. 5,6

A partir dos séculos XIX e XX, alinhados com alguns intelectuais antirreligiosos, que consideravam a religiosidade um estado social e intelectual primitivo, alguns médicos como Charcot e Maudsley desenvolveram críticas e tomaram como patológicas várias experiências religiosas. Freud, ao adotar evidente postura antirreligiosa, teve uma grande influência sobre a comunidade médica e psicológica. Em “Futuro de uma Ilusão” propôs a influência irracional e neurótica da religiosidade sobre a psique humana. Em 1930, escreveu que religião resultava em desvalorização da vida e distorção da visão do mundo real, pressupondo uma subestimação da inteligência. Embora alguns psiquiatras tivessem uma visão positiva da religiosidade, como Carl Gustav Jung, a postura negativa era predominante2,5.

Mesmo no final dos anos 1980, o psicólogo Albert Ellis, fundador da Terapia Racional Emotiva, que teve uma grande influência sobre a Terapia Cognitiva, apontava a religiosidade como equivalente ao pensamento irracional e ao distúrbio emocional. Defendia que a solução adequada para problemas emocionais era tornar-se não religioso, pois quanto menos religiosas as pessoas fossem, mais emocionalmente saudáveis elas seriam. No entanto, essas enfáticas declarações acerca da espiritualidade e religiosidade em saúde mental não eram baseadas em estudos bem controlados, mas somente em experiência clínica e opinião pessoal2.

Alguns autores defendem que a existência de um “abismo religioso” entre profissionais de saúde mental e seus pacientes pode ter contribuído para essa atitude negativa em relação à religiosidade. Psiquiatras e psicólogos tendem a ser menos religiosos que a população em geral. Além disso, profissionais de saúde não recebem treinamento adequado para lidar com questões religiosas na prática clínica. Por esse motivo, têm maiores dificuldades em entender pacientes com comportamentos e crenças religiosas2.

Somente nas últimas duas décadas, pesquisas científicas rigorosas têm sido realizadas e publicadas em grande número nas literaturas médica e psicológica. Tais pesquisas têm conduzido a uma série de estudos voltados para a investigação da relação entre envolvimento religioso e saúde no adulto, vivendo em comunidade ou hospitalizado por doenças. Desde então, a maioria dos estudos bem conduzidos tem apresentado uma associação positiva entre saúde e envolvimento religioso. Há uma tendência favorecendo à reaproximação de religião e psiquiatria em socorro a profissionais de saúde mental, desenvolvendo habilidades para compreensão de fatores religiosos que influenciam a saúde física e psíquica. David B. Larson, Jeffrey S. Levin e Harold G. Koenig são alguns dos pioneiros que abriram uma nova etapa para a investigação científica a respeito de religiosidade e saúde. Harold G. Koenig e colaboradores, em seu Handbook of Religion and Health, examinaram os achados de mais de 1200 pesquisas realizadas no último século a respeito da relação entre religião e saúde 1,2,5.

RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE

As definições dos termos “religião”, “religiosidade” e “espiritualidade” têm gerado debates e divergências. Já no início do século XX, foram identificadas dezenas de definições diferentes de religião. Nesse capítulo, utilizaremos as definições dadas por Koenig e colaboradores 5 e Hufford7.

Segundo Koenig , espiritualidade é uma busca pessoal pela compreensão das questões últimas acerca da vida, do seu significado, e da relação com o sagrado e o transcendente, podendo ou não conduzir ou originar rituais religiosos e formação de comunidades5. Preocupado com os possíveis problemas gerados por definições muito vagas de espiritualidade, Hufford busca uma definição mais objetiva e ligada à origem etimológica da palavra espiritualidade, a noção de espírito. Segundo ele, “espiritualidade se refere ao domínio do espírito”, ou seja, à dimensão não material, extrafísica da existência que pode ser expressa por termos como: “Deus ou deuses, almas, anjos e demônios”. Habitualmente se refere a “algo invisível e intangível que é a essência da pessoa” 7.

Para Koenig et al, religião é um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos destinados a facilitar a proximidade com o sagrado e o transcendente (Deus, força superior ou verdade absoluta)5.

Segundo Hufford, Religião “é o aspeto institucional da espiritualidade”, “religiões são instituições organizadas em torno da ideia de espírito”20. O termo religião aqui usado refere-se ao Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, Budismo e outras tradições religiosas com suas diversas vertentes. Religiosidade diz respeito ao nível de envolvimento religioso e o reflexo desse envolvimento na vida da pessoa, o quanto isso influencia seu cotidiano, seus hábitos e sua relação com o mundo5.

A religiosidade de uma pessoa, de acordo com Gordon Allport, pode ser intrínseca ou extrínseca. Na religiosidade intrínseca, as pessoas têm na religião seu bem maior. Outras necessidades são vistas como de menor importância, e, na medida do possível, são colocadas em harmonia com sua orientação e crença religiosa. Na religiosidade extrínseca, a religião é um meio utilizado para obter outros fins ou interesses, para proporcionar segurança e consolo, sociabilidade e distração, status e autoabsolvição. Nesse caso, abraçar uma crença é uma forma de apoio ou obtenção de necessidades mais primárias. A orientação intrínseca está habitualmente associada à personalidade e estado mental saudáveis2,5 .

RELIGIOSIDADE E COPING

Coping tem um papel central na relação entre religiosidade, espiritualidade e saúde. A palavra não possui uma tradução exata para a língua portuguesa. Alguns estudos traduzem coping como enfrentamento, o que não reflete a complexidade do seu significado. Coping pode ser melhor definido como o conjunto de estratégias utilizadas por uma pessoa para se adaptar a circunstâncias de vida adversas ou estressantes. Na perspectiva da Psicologia da Religião, Pargament define coping como “uma busca por significado em tempos de estresse”, “um processo através do qual os indivíduos procuram entender e lidar com as demandas significantes de suas vidas”8

A tradição religiosa ocidental dá ênfase a uma relação pessoal com Deus e com o próximo. Essas relações podem ter importantes consequências sobre a saúde mental, especialmente com respeito ao enfrentamento de circunstâncias difíceis de vida que acompanham a doença e suas limitações. Crenças e práticas religiosas podem reduzir a sensação de desamparo e perda do controle que acompanham doenças físicas. A perceção de uma relação com Deus pode oferecer uma visão de mundo que proporciona socorro e sentido ao sofrimento e à doença. Pessoas enfermas podem colocar suas habilidades a serviço da comunidade proporcionando-lhes um sentido para a vida2.

A religião oferece uma variedade de métodos ou estratégias de coping, que, contrariando o estereótipo de que seriam meramente defensivos, passivos, focados na emoção ou formas de negação, se mostram cobrindo toda uma série de comportamentos, emoções, cognições e relações. Pargament e colaboradores elaboraram uma escala de coping religioso e espiritual para avaliar esse aspecto. Deste modo, em relação aos resultados, os estilos de coping religioso e espiritual podem ser classificados em positivos e negativos. Evidências apontam um uso consideravelmente maior de coping religioso positivo do que negativo para diferentes amostras sob diferentes situações estressantes de vida. Estratégias de coping positivo estiveram associadas com melhor saúde mental (menos depressão e melhor qualidade de vida); a maioria das estratégias de coping negativo estiveram associadas com pior saúde mental e física.