Home / Noticias / SOFRE O JUSTO PELO PECADOR

SOFRE O JUSTO PELO PECADOR

O sofrimento sempre foi e sempre será um mistério, sobretudo o sofrimento dos inocentes. Porquê o sofrimento? O sofrimento é castigo ou mera provação? Se é castigo por males feitos, como explicar o sofrimento dos inocentes? Qual a origem do sofrimento: Deus ou o homem? Se Deus é bom, permite o sofrimento? Se é Todo Poderoso, porque não acaba com ele? Onde está a Justiça de Deus? …
Eis algumas interrogações que sempre afligiram e sempre afligirão o espírito de todo o homem que vem a este mundo. Desde que começou a existir, o homem sempre teve que se debater com este mistério. Daí que o sofrimento humano seja abordado por toda a Bíblia, de modo particular pelo Livro de Job: neste Livro, aparecem as interrogações acima mencionadas – interrogações tão velhas como o homem e interrogações sempre novas, porque sempre atuais. É este Livro que nos vai servir de guia neste tema sobre o sofrimento. Procure cada um lê-lo e meditá-lo.
O sofrimento é o confronto do homem com as suas próprias fronteiras, onde a ciência, por mais que progrida, não encontra palavras nem razões. Quando as palavras e as razões dos homens perdem todo o sentido, é então que tem todo o sentido a Palavra e a Razão de Deus, porque Deus, que é Palavra e Razão (=logos), é a Palavra e a Razão para a falta de palavras e de razões do homem.

A injusta justiça do homem
Segundo a racionalidade do homem, a justiça parece exigir que «aos bons tudo corra bem e aos maus tudo corra mal». De facto, a Bíblia, que é a História – muito humana – da descoberta de Deus pelo homem, está repleta, sobretudo no Antigo Testamento, de alusões a esta injusta justiça humana, aplicada a Deus: o sofrimento é visto como castigo pelo mal feito pelo próprio ou pelos próprios familiares: «Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus cioso, que castiga a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me ofendem, e uso de misericórdia até à milésima geração, para com os que me amam e cumprem os mandamentos» (Ex 20,5-6). Outros livros bíblicos – sobretudo o Livro dos Salmos – estão repassados da mesma teoria, que já no Antigo Testamento o Livro de Job pretende contestar, e que no Novo Testamento é contestada definitivamente por Jesus (Jo 9,1-2): uma teoria que, apesar de contestada pela Bíblia (Deus), continua ainda hoje a ter muitos adeptos, até entre os chamados «cristãos», por ser a maneira mais fácil de interpretar a justiça de Deus – uma justiça que se pretende à imagem e semelhança da justiça natural do homem (a justiça da «lei de Talião» : «olho por olho e dente por dente».
Tratava-se (e trata-se) de transferir o pensar e o agir humanos para o próprio Deus: Deus teria que pensar e agir como homem (=antropomorfismo de Deus). Ora, exigir que Deus proceda como procede o homem é tornar injusta a justiça de Deus: esta não seria mais do que uma justiça «imanente» (=a «natural» justiça do homem), à imagem, medida e semelhança da justa injustiça dos homens.
Esta teoria – aplicada assim, sem mais – metia (e mete) água por todo os lados; de facto, o que se vê parece ser exatamente o contrário: aos maus, tudo parece correr às mil maravilhas (ainda hoje), enquanto que aos bons tudo parece correr mal (ainda hoje). Daí, desabafos como estes: «De que serve rezar a Deus? Que proveito tiramos disso?» «Que aproveita ao homem estar bem com Deus?» «De que me serve e que vantagens tenho em não ter pecado?» Exatamente os mesmos desabafos e as mesmas queixas dos homens e mulheres de hoje. Daí as acusações constantes da «injusta justiça» dos homens à justa justiça de Deus, uma Justiça «transcendente» que nada tem a ver com a «injusta justiça» humana.

 

 

Check Also

Com Francisco e Jacinta Marto, chamados a sermos santos na caridade

Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião da canonização de Francisco e Jacinta Marto …