Mensagem de Natal do Bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas – Natal 2021.

 
Precisamos de pontes, não de muros!
 
Meus caros diocesanos e quantos, em tempo de Natal, sentis um apelo mais forte à construção da verdadeira fraternidade humana. A todos dirijo a minha mensagem natalícia, inspirada numa imagem recorrente do Papa Francisco – precisamos de pontes, não de muros –, acompanhada pela afirmação de que Cristo é O que constrói em Si mesmo a grande ponte de comunhão plena com o Pai e entre toda a humanidade, realidade que o Natal recorda e celebra.
Aliás, o caminho do Advento é pródigo em imagens sugestivas que, pela voz de Isaías e de João Batista , nos dirigem idêntico apelo: preencher vales, abater montes, aplanar caminhos, ou seja, eliminar todos os obstáculos que possam impedir o nosso encontro com Cristo e com os que nos rodeiam.
As pontes abrem -nos aos outros e ao mundo. Os muros limitam a liberdade, anulam os sonhos, obrigam-nos a viver como prisioneiros em celas construídas por nós próprios.
Celebrar o Natal deve constituir para todos uma oportunidade para assumir a decisão de abater toda a espécie de muros, unir margens, comunicar, construir pontes, estabelecer uma relação com quem é diferente de nós, pela língua, cultura, religião… acolher e partilhar realidades novas, construir a fraternidade em todas as direções. Este apelo do Papa Francisco adquire reconhecida atualidade neste tempo , à luz das imagens recentes sobre a construção de muros (betão, ou arame farpado) , em diversos países, para impedir migrantes e refugiados de fugir a uma sucessão interminável de guerras, conflitos, genocídios, “limpezas étnicas”, que continuam a persistir no nosso tempo. Anima -os o desejo de procurar uma vida melhor, unido, muitas vezes, ao propósito de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir.
Imagens a que ninguém fica indiferente. São famílias inteiras, homens e mulheres, crianças, jovens e idosos, que procuram um lugar onde viver em paz, muitos deles decididos a arriscar a vida, numa viagem que se revela longa e perigosa, sujeitando-se a fadigas e sofrimentos, vítimas da exploração e da instrumentalização e, infelizmente,
muitos encontrando a própria morte. Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental . Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros.
Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações que se vêm juntar a problemas já existentes, bem como a disponibilidade de recursos que são sempre limitados (cf. Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial
da Paz, 2018).
Reconhecendo a complexidade deste problema, admitimos que nenhum país, mesmo com as melhores condições, tem a capacidade e a possibilidade de o resolver sozinho, face à sua urgência e amplitude, na procura de uma resposta que crie as condições exigidas para acompanhar, promover, integrar quantos procuram uma vida
melhor. Todos nós, cada um a seu modo e dentro do âmbito em que vive e trabalha, somos chamados a ser pontes no acolhimento de quem é diferente de nós. A fraternidade que nos trouxe o Deus-Menino e confirmou na noite de Páscoa, com a Sua morte e ressurreição, é dom de Deus dado aos homens , para os tornar capazes de se acolherem e amar em uns aos outros, construindo um mundo mais justo para todos. Esta fraternidade é consequência da conversão do coração, não se baseando unicamente numa igualdade de direitos. Dela nasce a amizade social , que se traduz no compromisso pessoal em construir um mundo mais fraterno . Importa, como tal, assumirmo-nos como protagonistas empenhados na transformação da realidade que nos
circunda.
Neste Natal convido-vos a acolher O “Menino nascido em Belém”. Com Ele será mais fácil acreditar e confiar na mudança que Deus quer operar em nós, destruindo barreiras, curando medos, desfazendo preconceitos e, sobretudo, transformando-nos em “construtores de pontes”:
• Capazes de acolher e socorrer os mais frágeis de todas as origens e
proveniências;
• Ter comportamentos cívicos responsáveis, em tempo de agravamento da crise
pandémica;
• Ser semeadores d e esperança e testemunhas da alegria como os pastores, os Magos e quantos se encontram com Cristo e o acolhem na sua vida. Que neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade e o empenho pessoal em ser construtores da verdadeira paz.
A todos formulo votos de um SANTO E FELIZ NATAL!
Para todos invoco as bênçãos do Deus-Menino!
Convosco confio à proteção da Virgem Maria, como Mãe de Jesus e nossa Mãe, o Novo Ano que vamos iniciar.
 
Manuel Neto Quintas
Bispo de Faro (Algarve).
 

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