Resgatemos a Política!

 

“Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” (Mc 12, 28). Aqui se deveria regressar, sempre apressadamente, sem preconceitos e amarras ideológicas. Porque também é urgente resgatar a Política, essa ciência da Cidade e a arte do seu governo, da luta entre direita, esquerda e centro, dos extremismos, do populismo e da demagogia, dos programas ditatoriais ou defensores do totalitarismo. Resgatar a política das teses volúveis, infrutíferas e evasivas onde a Pessoa humana deixou de ser o seu centro. É preciso resgatar a Política desses novos fariseus exclusivamente ocupados e preocupados pela observância escrupulosa da Lei e dos interesses do que é partidário e segregativo, mas que esqueceram o “Tudo” a que tudo se deve subordinar. Aprender que a Política está ao serviço da vocação pessoal e social dos homens. E que são estes os sujeitos de toda a sua autoridade. Homens que não devem segregar a sua transcendência e que devem torná-la sempre presente na vivência do amor que brota da escuta dessa fonte donde promana a vida, de Deus. Resgatemos a política cujo poder se distinga da esfera do absolutismo e da exclusão, ou daquela trasvestida de religiosa, que corrompe a saudável laicidade, mas já não gramática e caminho para o Bem comum. Resgatemos um novo sistema de orientação, de pontos cardeais, que dê espaço e voz aos famintos, que somos todos nós, da esperança, da justiça e da verdade. A política que seja charneira, a dobradiça e não a amarra para a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Essa avenida principal que encaminhe rumo à universalidade e ao Humanismo, o nosso prumo pela responsabilidade ética com o próximo, que efetive verdadeira revolução numa diferente e nova visão sobre o tempo e o mundo. Resgatemos uma Política que possa eliminar tanto tique fascista que obnubila o futuro e o nosso avançar. Essa Política extraordinariamente apresentada pela poderosa e luminosa escritora polaca Wislawa Ssymborska, prémio Nobel da literatura no já longínquo ano de 1996 no poema: Filhos da época: Somos filhos da época/ e a época é política. /Todas as tuas, nossas, vossas coisas/ diurnas e noturnas, / são coisas políticas. /Querendo ou não querendo, /teus genes têm um passado político, /tua pele, um matiz político, /teus olhos, um aspeto político. /O que você diz tem ressonância, /o que silencia tem um eco /de um jeito ou de outro político. /Até caminhando e cantando a canção/ você dá passos políticos /sobre um solo político. /Versos apolíticos também são políticos, /e no alto a lua ilumina /com um brilho já pouco lunar. /Ser ou não ser, eis a questão. /Qual questão, me dirão. /Uma questão política. /Não precisa nem mesmo ser gente/para ter significado político. /Basta ser petróleo bruto, /ração concentrada ou matéria reciclável. /Ou mesa de conferência cuja forma /se discuta por meses a fio: /deve-se arbitrar sobre a vida e a morte /numa mesa redonda ou quadrada. /Enquanto isso matavam-se os homens, /morriam os animais, /ardiam as casas, /ficavam ermos os campos, /como em épocas passadas /e menos políticas. Resgatemos uma Política melhor, que não seja somente a arte de administrar a casa, o poder, os recursos ou as crises, mas seja, na verdade, uma vocação de serviço, de vigilância e de testemunhas de uma nova e eficiente solidariedade e caridade, fundamento de uma moral sólida que seja compromisso pela construção de um mundo mais justo, humano e fraterno. Uma política não submetida à economia e aos ditames e paradigma eficientista da tecnocracia, de interesses mesquinhos e fixados no imediato. Resgatemos uma política capaz de reconhecer todo o ser humano como um irmão, procurando e fazendo reflorescer uma amizade social que integre a todos. Uma política que ensine a amar com ternura e compaixão, defenda os mais vulneráveis e fragilizados, una a esperança e a confiança nas reservas de bem, que se funda no direito e num diálogo leal. Uma política com o sal e a luz do Evangelho, contra a ditadura da aparência, do relativismo e da mediocridade. Uma política que sirva e eleve verdadeiramente o homem à sua dignidade!

 

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/

Autor: Padre Carlos Aquino, Diocese do Algarve

 

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